A região do pé conhecida como articulação do Lisfranc é, na verdade, a transição entre a porção média do pé e sua porção mais anterior. Participam desta transição três ossos em forma de cunha (cuneiformes), o osso cubóide e as bases dos cinco ossos metatársicos que se articulam como se fizesse parte de abóbadas de uma catedral. É um arranjo tridimensional muito delicado e exigente que funciona transmitindo e absorvendo forças que aplicam aos nossos pés na marcha e na corrida.

     A mobilidade das diversas facetas que compõem a articulação de Lisfranc é bem pequena, mas de suma importância para o perfeito desempenho funcional do pé. As fraturas e fraturas-luxação que ocorrem nesta área, podem ser produzidas por traumatismos diretos ou indiretos.

     A queda de um objeto pesado sobre o dorso do pé exemplifica claramente a forma "direta" destas fraturas. A torção do pé que está fixado ao solo por ação da borracha da sola do calçado ou aprisionado entre os pedais de um automóvel que se acidenta, ilustra a forma indireta das fraturas de Lisfranc.

Fratura Luxação da Região Média do Pé - figura 01

     Assim como variam as forças e os movimentos que as produziram, também variam as combinações destas fraturas. São possíveis as fraturas isoladas ou múltiplas, as fraturas com luxação dos fragmentos e as lesões ligamentares complexas. Seja qual for a combinação, devemos estar atentos à circulação geral do pé e à possibilidade de se instalar a Síndrome Compartimental.

     As radiografias de urgência podem indicar a maioria das lesões sofridas, mas o estudo tomográfico freqüentemente é necessário para esclarecer dúvidas sobre algum detalhe anatômico. Estas fraturas e fraturas-luxações são muito instáveis, razão pela qual prefere-se o tratamento cirúrgico sempre que possível. Com o paciente anestesiado podemos movimentar a região e saber com maiores detalhes o grau de lesão dos ligamentos locais. Recomendamos a redução sob visão direta de todas as articulações envolvidas e sua fixação com fios de aço ou parafusos.

     Apesar da perfeita redução dos fragmentos de fratura e das luxações articulares, é relativamente comum e a obtenção de resultados finais apenas regulares. Isso se deve à lesão das superfícies articulares (revestidas pela cartilagem articular), muito sensíveis, no momento do trauma. Mesmo o mais experiente cirurgião, praticando a mais perfeita técnica, pode obter como resultado pés dolorosos e funcionalmente incompetentes como resultado das fraturas luxação de Lisfranc.

     Para estes casos ainda resta a alternativa de artrodese (fusão) das diversas articulações que compõem a Lisfranc. Não é uma situação confortável, mas o pé rígido e relativamente limitado é muito melhor do que o pé doloroso e incapaz.

Prof. Dr. Caio Nery