O talo é o osso que participa da junção da perna com o pé. É praticamente todo recoberto por cartilagem articular e é o único osso no corpo humano que não recebe nenhuma inserção muscular. O talo é um osso extremamente duro e somente traumatismos de grande energia são capazes de lhe produzir fraturas. No passado, apenas os acidentes aéreos eram capazes de gerar fraturas do talo, mas modernamente os acidentes de trânsito e os esportes radicais são os principais responsáveis por sua existência.

     Em função da intensidade do trauma que gerou a fratura, podem surgir importantes deficiências da circulação local com aumento da pressão nos tecidos moles a qual denominamos Síndrome Compartimental. Este quadro se caracteriza por dor intensa e persistente que não cede ao tratamento convencional. Esta é uma situação emergencial e deve ser identificada e tratada o mais rápido possível, antes que se instale a necrose tecidual.

     A forma mais freqüente de fratura do talo é aquela que envolve o "colo" do talo, região mais estreita que liga a cabeça ao corpo daquele osso. Na maioria das vezes a fratura se produz ao realizar a extensão forçada do pé, ocasião em que a margem anterior da tíbia choca-se contra o colo do talo fraturando-o.

     As fraturas do corpo do talo são as mais importantes em função do maior contingente de complicações que delas decorrem.

Fraturas do Talo - figura 1

     Por ser um osso muito articular e por não possuir inserções musculares, o talo tem um padrão de circulação muito peculiar e limitado. O trauma violento, especialmente aqueles dos quais resultem fraturas ou fraturas luxação, pode romper os pequenos vasos que irrigam o talo podendo desencadear a "necrose" dos fragmentos ósseos. A necrose óssea atrasa substancialmente a recuperação e cicatrização dos tecidos e retarda o retorno do paciente à vida normal. Na dependência do tipo de fratura ou da energia do trauma podem resultar extensas áreas de necrose óssea que podem requerer 10 a 12 meses para cicatrizar.

     O tratamento das fraturas do talo sem desvio é conservador (não operatório), mas as fraturas desviadas devem ser tratadas através da redução cirúrgica e fixação dos fragmentos com fios de aço ou parafusos. Todo cuidado deve ser tomado para não interferir na circulação do talo no momento da cirurgia. No período pós-operatório o paciente é mantido em observação e sem carga do peso corporal até que apareçam os sinais radiográficos de vitalidade óssea e consolidação dos traços da fratura.

     Quando surge dúvida a respeito da qualidade e vitalidade do osso, pode ser necessária a obtenção de exames que esclareçam essa condição (cintilografia do esqueleto ou ressonância magnética).

     Uma vez obtida a redução adequada da fratura e na vigência de circulação normal, podemos esperar a completa recuperação funcional do indivíduo.

Quando a redução não é satisfatória ou quando houver comprometimento circulatório do talo, surge, depois de algum tempo, a artrose das articulações com as quais o talo mantém relação.

     A dor, a limitação dos movimentos e a incapacidade funcional acabam por exigir a fusão entre dois ou mais ossos. Quando a lesão é tão extensa que destrói tanto a articulação com a tíbia quanto a articulação com o calcâneo, é necessária a artrodese tíbio-talo-calcaneana que pode ser realizada de várias formas.

     O Dr. Caio Nery vem trabalhando no aperfeiçoamento da técnica desta artrodese, tendo criado uma das hastes disponíveis para a realização deste procedimento.

Prof. Dr. Caio Nery