Lesões Traumáticas da Cartilagem Talo

(Fraturas osteocondrais do talo - FOT)

     As lesões da cartilagem do talo são achados cada vez mais freqüentes em virtude da difusão mundial da prática desportiva e da maior intensidade dos agentes traumáticos. Acredita-se que aproximadamente 18% dos pacientes que sofreram entorses de tornozelo com lesão ligamentar importante apresentem concomitantemente fraturas osteocondrais do talo.

     Alguns autores utilizam a denominação de "osteocondrite dissecante" do talo para estas lesões mas, em virtude de sua origem traumática, é preferível a denominação de fratura osteocondral do talo (FOT).

     As fraturas osteocondrais do talo podem se localizar na porção medial (interna) deste osso ou em sua porção lateral (externa). Há um nítido predomínio das fraturas mediais (e posteriores) (70%) sobre as laterais (e anteriores) (30%) em virtude de serem produzidas pelo mecanismo mais comum de entorse de tornozelo que é o de inversão com rotação.

     Outra diferença básica entre estes dois tipos de lesão é quanto à forma. As lesões mediais são, via de regra, mais profunda e em forma de cúpula. As laterais são mais rasas e esfoliativas.

     A classificação radiológica (Berndt-Harty, 1959) é ainda a melhor e aquela que resume de forma mais prática as fraturas osteocondrais do talo (Figura da Classificação de B&H).

     A enorme maioria das fraturas osteocondrais do talo não é diagnosticada no momento do trauma inicial. Na quase totalidade dos casos o diagnostico é suspeitado pela manutenção da queixa dolorosa do paciente que não consegue retornar às suas atividades plenas, meses após o entorse do tornozelo.

     É comum o achado de dor viva à palpação da linha articular do tornozelo e o paciente se queixa de dor aguda (agulhada) em algumas posições ou movimentos específicos do tornozelo durante o apoio ou corrida.

     O diagnóstico pode ser assegurado através das radiografias simples, mas a perfeita avaliação da lesão depende da obtenção da tomografia axial computadorizada e de ressonância magnética. Enquanto a tomografia localiza, tipifica e dimensiona a lesão com exatidão, a ressonância oferece dados adicionais sobre a vitalidade e/ou envolvimento dos tecidos vizinhos.

     Em nossa opinião, exceto as lesões do tipo I de Berndt-Harty, as fraturas osteocondrais do talo devem ser tratadas cirurgicamente.

     A maioria destas lesões, de até 12 mm de diâmetro e profundidade que não ultrapassa a camada sub-condral do osso, pode ser tratada artroscópicamente com a mínima agressão à articulação do tornozelo.

     Neste método são retirados os fragmentos desvitalizados da cartilagem do talo e que recobrem a lesão. Depois desse passo, o fundo da lesão é limpo e liberado de todas as impurezas.

     Por fim, com material especial, são produzidas perfurações no fundo da lesão para que possa haver penetração de vasos sanguíneos provenientes da medula do osso e com eles, o tecido cicatricial (fibro-cartilagem).

     Quando as lesões são maiores, tanto em extensão quanto em profundidade, é necessária a adoção de técnica mais sofisticada. Através de cirurgia convencional (aberta) a lesão é limpa e desbridada. O segundo passo consiste na colocação de cilindros ósteo-condrais retirados de outra articulação do mesmo paciente (geralmente da borda lateral do joelho) em orifícios previamente realizados no tolo. São colocados tantos cilindros quantos necessários para cobrir toda a área reparada que se assemelha a um mosaico, a técnica foi chamada de "mosaicoplastia".

     Apesar da aparente agressividade do método, são excelentes os resultados obtidos com sua utilização.      O método mais moderno e promissor para o tratamento das lesões osteocondrais do talo é o implante de condrócitos (células cartilagíneas). Neste método, obtém-se em procedimento minimamente invasivo (artroscopia) pequeno fragmento de cartilagem do joelho (biópsia) do próprio paciente. Esse material é encaminhado a um laboratório de bioengenharia onde será cultivado. As células do próprio indivíduo são estimuladas a se reproduzir rapidamente e formam uma verdadeira "colônia" que é "implantada" na lesão 30 dias depois da primeira intervenção.

     Este método, já aprovado e utilizado na Europa e Estados Unidos está sendo introduzido no Brasil através do trabalho do Profº Dr. Caio Nery e da empresa Biológica (Campinas, SP).

Prof. Dr. Caio Nery