Lesões dos Tendões Fibulares

Dor na Face Lateral do Tornozelo

     Os músculos fibulares curto e longo (ou peroneiros) são importantes no equilíbrio e no funcionamento normal do tornozelo e pé. Ambos os músculos atuam na eversão do pé e são importantes na potência de arranque da marcha e corrida. O músculo mais superficial é o fibular longo e o mais profundo é o fibular curto. Ambos os tendões se situam na região posterior do maléolo fibular do tornozelo e se inserem distalmente na base do primeiro metatársico (longo) e base do quinto metatársico (curto). Devido à sua ação, podem sofrer traumatismos freqüentes ou sobrecarga funcional.

     O desalinhamento da porção posterior do pé (em valgo ou varo) determina maior desgaste destes tendões que passam a produzir sintomas. O quadro mais corriqueiro é a tendinite aguda que se manifesta através de dor intensa e incapacitante, aumento de volume na goteira póstero-lateral do tornozelo (atrás do maléolo da fíbula) e graus variados de incapacidade funcional. Mantidas as condições desfavoráveis ou quando se associa alteração degenerativa (idade, doenças sistêmicas e debilitantes) as fibras que constituem os tendões começam a sofrer ruptura.

     No início, as poucas fibras rotas são facilmente compensadas pelas remanescentes. Com o tempo, no entanto, este quadro se inverte e predominam as fibras lesadas ou incompetentes. O paciente se torna mais e mais limitado em função da dor e da incapacidade de realizar suas tarefas corriqueiras. A progressão deste quadro acaba com a ruptura completa dos tendões e perda absoluta de suas funções.

     O diagnóstico deve ser suspeitado sempre que houver dor na região póstero-lateral do tornozelo após atividade física ou com o uso de determinados calçados. É evidente que em fases avançadas as queixas são mais exuberantes e a suspeita diagnóstica de acometimento dos tendões fibulares pode ser lançada com maior facilidade.

     O diagnóstico pode ser confirmado através da ultra-sonografia ou da ressonância magnética. Seja qual for o recurso utilizado, busca-se identificar zonas de rupturas de fibras onde esteja ocorrendo sua substituição por tecido fibroso (cicatricial).      O tratamento nas fases iniciais, em que predominam os fenômenos inflamatórios, pode ser feito com imobilizações e medidas antiinflamatórias químicas (medicamentos) ou físicas (gelo, ondas curtas, laser, etc.). A adequação dos calçados e das táticas de treinamento e esporte é imprescindível para a completa e correta abordagem do paciente.

     Nos casos mais avançados em que já possam ser detectadas alterações das fibras tendíneas, o tratamento deve visar a supressão da carga, a mudança da atividade desportiva realizada ou, se a lesão é extensa, o tratamento cirúrgico. Ao se optar pela cirurgia, é realizada análise criteriosa de todos os fatores envolvidos na gênese do problema para que sua abordagem seja a mais abrangente e completa possível.

     As deformidades do retropé devem ser corrigidas para evitar a prevalência das condições mecânicas desfavoráveis para os tendões fibulares. Não se deve minimizar a importância da participação do primeiro metatársico na gênese do cavisvo e varismo do pé como um todo, quadro que sobrecarrega os tendões fibulares até que estes sofram diferentes graus de degeneração e ruptura.

     Através da limpeza do tecido deteriorado, sutura interna e solidarização a tendões sadios da mesma região ou transferidos para o local, podem ser esperadas taxas bastante elevadas de resultados satisfatórios no tratamento destes pacientes.

Prof. Dr. Caio Nery